Guga Szabzon - Como é que eu sabia?

16.03—15.04.2017

 

Artista:
Guga Szabzon

Carta Celeste ou Planisfério Eufônico

 

Dizem que os mares lunares são planícies basálticas, vastas e escuras que povoam a superfície do satélite. Os cientistas que estudam os corpos celestes costumam balbuciar que essas topografias são formadas pelo impacto de meteoritos desgovernados que se chocam contra a pálida esfera. Para classificar os leitos desgastados da superfície lunar, a nomenclatura científica também inclui oceanos, lagos, pântanos e baías.

Contudo, as fábulas costumam ser contraproducentes e aqui falamos de literatura, de sintaxe, sendo assim advirto que certas palavras podem estar contaminadas por suas vizinhas.

Pois bem, certo literato latino que imprudente observava um mapa da lua, notou que seus “mares” e “rios”, embora apartados, reservados e ausentes, a despeito dos enunciados técnicos, perpetuam abstratamente a lembrança de antigas águas. Ela, filha de titãs e irmã do deus sol, em tempos antigos, era um afloramento aluviano, um inesgotável manancial do qual fluíam rios de voluptuosa cintura, devoradores de montanhas, alpinistas destemidos. Esses rios teciam-lhe uma trança que descia pelo fino desnível entre seus omoplatas e pendia envolvendo paisagens minerais, e desenhando copiosa hidrografia. Em arquipélagos, trópicos e equador, no contorno das costas da deusa Selene, roçavam espumas navegáveis, por penínsulas, angras, canais e lagoas profundas. Dos cumes ao curso dos rios, em ondas e chuvas, a lua era um centro de gravidade, uma fonte termal, um campo magnético, um Atlas suculento.

No entanto, nos conta Oráculo Tajzri, a terra invejosa certa vez, imbuída de brutal crueldade, concentrou as reservas de sua força de atração e, partindo do pico do Kilimanjaro, arrancou da lua suas tranças multiformes e com a boca aberta, esperou salivante a chegada da vasta corrente, ansiosa por se adornar com ela e esconder debaixo do líquido cosmético sua feiura. Selene ficou desnuda, seca e branca qual uma pequena pérola fosforescente.

Diz-se que o filho da Lua, chamado Museu, se instalou no alto do Jbel Toubkal, cordilheira que separa as terras costeiras do mar mediterrâneo e do oceano atlântico das terras áridas do Saara, de onde podia observar, refratário, o manto aquático roubado. Como nenhum museu tem asas, a não ser que pudesse retirar a força da gravidade ao passado, se apartou nas alturas da montanha de onde podia olhar na água o espelho do céu.

Seduzido pelo vazio de sua janela que parecia dar a uma imensa e imóvel realidade externa, se deleitava com prata e espuma nos olhos ao perceber que esta paisagem bruscamente se reduzia a um único ponto dentro de seu crânio. As imagens sonhadas ou imaginadas por ele, eram capazes de conter toda a extensão do mundo mas, ao mesmo tempo, caber e habitar uma mente solitária.

– “Se dentro de minha mente não há extensão nenhuma e em qualquer imagem minha posso representar tudo o que vi, é porque simplesmente não existe extensão, todo o universo não é mais que um ponto, não é mais que uma ideia, uma imagem em minha alma. Sintamos, amada mãe, o vazio do mundo, da apresentação geométrica das coisas, do universo, a plenitude, a certeza da paixão única, da escavação, espelhamento e escrita, num ciclo de deterioração e renovação simultâneas”.